Do Leitor

Do Leitor: Coronavírus

27 de março de 2020

Esta é uma legenda de teste

Todos os cidadãos estamos perdidos. Não obstante a avalanche de informações que os meios de comunicação nos lançam, o que efetivamente interessa, principalmente aos idosos, resta nebuloso.
Não se tem uma perspectiva temporal de até quando deveremos ficar em casa, circunstância que aumenta a agonia. Não é crível que se vá, a curto prazo, afrouxar a medida, principalmente no momento em que a velocidade de propagação do mal estiver maior.
Também não se informa sobre probabilidades de ser infectado, cumprindo rigorosamente o isolamento social. É necessário saber claramente qual o custo do sacrifício, quais os benefícios dele decorrentes e quem são os seus beneficiários.
A impressão que se tem é que, especialmente a dos velhos, o isolamento busca exclusivamente garantir a eles um lugar na UTI e quem sabe, mais à frente, uma das milhares das novas covas.
Pode-se sonhar com a possibilidade de não ser contaminado por fato exclusivo do isolamento (sorte não conta, pois, do contrário, seria este inútil)? Qual, é claro imaginado, o percentual de sucesso da medida individualmente para o idoso submetido a isolamento? Qual o tempo – médio – contado da infecção até à cura, para voltar às atividades normais? Qual a percentagem de óbitos entre os idosos, na proporção com os vivos? Afinal, também, apesar da idade, temos de ter esperanças.
Igualmente, é interessante notar que, no início da pandemia, as autoridades desdenharam da gravidade da doença, chegando a chamar o povo de histérico.
Essa postura lembra antiquíssima piada da arquibancada do circo (para os mais novos: numa época em que o assento dos espectadores se constituía de tábuas apoiadas em estrutura de ferro; ao se assentarem, as tábuas se vergavam, abrindo fendas entre elas – ao meio de um espetáculo, o leão fugiu da jaula e os espectadores se levantaram imediatamente para fugir, menos um, que teve seus testículos prensados pelas fendas que se fecharam; o infeliz, então, passou a gritar “senta gente, que o leão é manso”). No caso do corona, foi essa a mensagem, mas o leão é bravo.
A solução que se dá para os mais pobres, cujas casas não passam de um único cômodo, é manterem as mãos lavadas e bons hábitos sanitários, quando nem mesmo água ou esgoto têm.
Pelas consequências imensuravelmente graves entre os mais pobres, quem sabe se o mundo não desperta para a urgente necessidade de se atualizar o “contrato social” de Rousseau.
Na época em que foi publicada a obra, 1762, não havia os modernos meios de comunicação social e os mais desassistidos, incultos, acreditavam que os seus direitos se resumiam praticamente a sobreviver e isto lhes davam os poderosos.
Hoje, já reclamam seus direitos, positivados em leis fundamentais.
Há urgente necessidade de adequar o “contrato” aos novos tempos, criando cláusulas mais rígidas, para torná-lo viável num breve futuro.

Raul Moreira Pinto – Passos/MG