Dia a Dia

Dia a Dia: Retratos e pecados da menina Maria

27 de março de 2020

Retratos, talvez sejam a melhor forma de eternizar momentos. Há quem acredite que aprisionem fragmentos da alma, desconfio que isso tenha um fundo de verdade.
Ela podia contar nos dedos de uma das mãos os retratos de sua infância:
* O primeiro foi tirado aos dois anos.
* O segundo aos sete, junto dos três irmãos.
* Houve um terceiro é o retrato que ela nunca teve. — Não tinha dinheiro no dia, — porém teimosa, o carrega na memória como se o tivesse ali, no porta retrato, junto com os outros. A maioria dos estudantes de sua geração tem um retrato como esse: ao fundo, a Bandeira do Brasil, um globo sobre a mesa, o aluno de uniforme sentado e de pé, ao seu lado, sua estimada professora.
* O quarto retrato remete a um grande momento. Esse texto conta a história.
O sol de sua vida já passou do meio dia, mas a lembrança daquele dia é nítida, quando aos dez anos de idade, Maria fez a primeira comunhão.
Era uma turma grande. A catequista havia ensinado com devoção. Sabiam os Dez Mandamentos na ponta da língua, os Sete Pecados Capitais, as orações, todos sabiam achar capítulos e versículos na Bíblia Sagrada, tudo que era preciso estava pronto; até o vestidinho branco, feito pela mãe com muito carinho.
O que ressabiava as crianças era a confissão ao pé do padre, que era indispensável para quem iria receber um sacramento. A turma estava se pelando de medo do padre Murilo, que, apesar de conhecido e estimado por todos na cidade, pois exercia o sacerdócio há décadas, tinha fama de bravo.
Maria, muito ansiosa e preocupada, fez até reunião com os colegas:
— Quê qui a gente vai falá pru padre?
— Uai, a dona Nabir falô qui pecado é um trem errado qui a gente feiz e qui tá pesano na nossa consciênça… Aí a gente vai lá conta pro padre e ele manda nóis arrependê, dá pinitênça e nóis tamu prontim pá comungá.
— Ahh bão, intão é facim, vô iscrevê na mão os pecado pá num isquecê, na hora é só i leno e falano.
Dentre os “pecados” das crianças estava: bater no irmão, responder a mãe, brigar com amigos, fazer fofoca, colar nas provas…
Mariinha tinha algo mais a pesar-lhe a consciência, coisa que não dividiu com os colegas, pensou até em não contar ao padre…
No dia marcado, por ordem alfabética, iam um a um até o confessionário e de lá se encaminhavam para um dos bancos da frente, a fim de rezar e cumprir a penitência determinada pelo sacerdote.
Assustaram-se quando de repente, o padre saiu do confessionário e levou o José Joaquim pelos ombros e o colocou de joelhos, na escadaria do altar, separado das outras crianças. Quando viu isso, Maria quis desistir e saiu de fininho para ir embora. Mas como na chamada era a próxima, ouviu seu nome e não teve como escapulir. Foi até o confessionário e se ajoelhou. Conferiu as anotações da mão e estava pronta para a confissão.
— Quais são seus pecados, minha filha?
— Padre, ieu bati no meu irmão…
— Hum, o que mais?
— Rispondi minha mãe, fiquei cum priguiça, falei nome de Deus in vão.
— Só isso? — Perguntou o padre.
— Num é só isso não, padre…
— Fala, minha filha.
— Mais… É qui…
— Fala.
— Si ieu falá, o sinhor perdoa?
— Não sou eu quem perdoa, é Deus. — Fale.
— Tá, ieu vô contá.
— Conte. Estou ouvindo.
— Padre… O sinhor sabe qui minha mãe faz doce né?
— Sei sim, doces muitos bons por sinal. Mas o que tem isso, a ver com a confissão?
— É qui… Teve um dia… Ieu tava ino fazê entrega de uma bandeja cheia de pedaço daquele doce de leite cum rapadura… Lá ia oiano prus lado e trupiquei numa pedra…
— Machucou o pé? Mas isso não é pecado, minha filha.
— Machucá o pé num foi nada… Dexei os doce caí tudo na puêra du chão…
— Aí você voltou com doces e contou para sua mãe?
— Não, sô padre… Deu medo da mãe ficá braba cumigo, mode quê, num tinha mais leite nem rapadura pá fazê mais doce… Aí eu catei tudo do chão e tava mei chujo de terra… Intão ieu peguei os pedaço de doce um por um e limpei no meu vestido. Nem pareceu que tinha caído na rua, ficô tudo limpim. A sorte foi qui o doce de rapadura é marronzin da cor de terra né? Se fosse de leite cum açuca…
O padre ficou em silêncio… Maria resolveu perguntar:
Continua na próxima edição…

 

Autor: Maria Mineira